segunda-feira, 27 de março de 2017

Bubbledogs | Champagne & Hot Dogs

A conjugação Cachorro Quente (Hot Dog) / Campanhe (Champagne) não é a mais óbvia. Na verdade não é nada evidente cruzar um elemento tipicamente pouco sofisticando, associado à comida rápida e de rua, a outro que destila glamour e sofisticação.


Pois é, mas este cruzar de elementos tão distintos no status acontece. No Soho londrino. 
Londres é daquelas cidades do mundo que se não existe algo é porque ainda não foi inventado.
Apesar da possível estranheza da conjugação, a mesma resulta muito interessante e gostosa.
No Bubbledogs, espaço divertido e descontraído, é onde podemos encontrar múltiplas combinações entre estas duas iguarias, cachorro quente e champanhe.
Enquanto o nosso pedido não chega à mesa podemos entreter-nos, divertidamente, a observar os diversos desenhos com o cachorro como intérprete principal.



Chega à mesa a comida e o cachorro continua a ser a estrela principal, mas agora coadjuvado pelo champanhe e as batatas.
Uma das versões escolhidas de cachorro quente é a BLT, com bacon crocante, alface caramelizada e maionese de trufa. Dão-nos a optar qual a carne que pretendemos para a salsicha. A escolha recai na de porco.
A escolha do champanhe é Gaston Chiquet (Sélection Cuvée, Brut) de Dizy, composto por 60% Pinot Meunier, 15% Pinot Noir, 25% Chardonnay.


Como o cruzamento dos opostos pode ter tanto de inusitado como de saboroso.
Um brinde à excentricidade e à simplicidade, as quais se reuniram à mesa e alcançaram um belo e delicioso resultado.

Taberna do Mercado | Londres

Quando de viagem não sinto necessidade de me alimentar de comida portuguesa. As saudades não se impõem em tão pouco tempo e, por outro lado, na minha concepção, viajar é descobrir coisas novas, nas quais se incluem novos sabores.
Contudo, por vezes, algo da gastronomia portuguesa é um destaque na cena gastronómica do local onde estamos de viagem e, nesse caso, vale a pena quebrar a regra.
Foi o que se passou em Londres, onde entrámos num sítio todo ele a transpirar portugalidade. Loiça Vista Alegre, tampos das mesas com mármores de Estremoz, cadeiras modelo Gonçalo (a mais famosa e icónica cadeira de esplanada portuguesa), garrafeira com vinhos e outras bebidas de marcas portuguesas, outros produtos portugueses expostos, como o sal (Salmarim) e o azeite.

 


Todas estas referências portuguesas encontram-se no Taberna do Mercado, no Old Spitalfields Market, em Shoreditch, na zona leste de Londres. Este é o espaço actual de Nuno Mendes, o chef português que conquistou os londrinos e é uma referência gastronómica da capital britânica. Depois dos seus projectos anteriores, no quais se destaca o Viajante - com o qual logo no primeiro ano ganhou uma estrela Michelin -, não mais saiu da cena gastronómica londrina.
Assim, estando em Londres não perdemos a oportunidade de petiscar, num ambiente informal e descontraído, ao belo estilo português. É uma cozinha de partilha, a desenvolvida neste espaço onde rapidamente os empregados começam a falar português connosco. 
Instalámo-nos na sala principal (há mais um espaço ao estilo de esplanada fechada, onde estão as cadeiras Gonçalo) e logo fizemos a escolha dos pratos.
Tostas de lardo fumado na casa. Lardo é uma parte da gordura do porco, em que os italianos são exímios a preparar.

 

Pão com azeite, conserva caseira de mexilhão com cebola (Mussels, pickled onions and grilled sourdough) e conserva de cavala feita na casa com refogado de tomate e presunto (Mackerel, tomato sofrito).

 


Green bean fritters and bulhão pato, que é como quem diz peixinhos da horta, embora com uma polme mais à tempura japonesa, acompanhados de um caldo à Bulhão Pato.


Salada de polvo com pimento (Octopus and pepper salad).


Choco com pezinhos de coentrada (Cuttlefish and pig trotters coentrada).

 

Para rematar podia ter sido um pão-de-ló, mas optámos pelo pudim feito de presunto, o Abade de Priscos, envolvido numa calda ligeira de vinho do porto e canela.


Apreciações. Estava tudo bom. A fazer jus ao conceito de captar e reinterpretar os ingredientes, pratos e sabores portugueses.
Destaque para o lardo, que adoro. Para o encontro inusitado dos peixinhos da horta com o caldo à Bulhão Pato, o que transforma este snack num dos ex-libris da casa.
Para o cruzamento de sabores do mar e da terra conseguido pela cavala com o presunto. 
Para o casamento, também do mar e da terra, mas bem mais arriscado e difícil, do choco com os pézinhos de coentrada, onde se obtém uma união feliz e cheia de personalidade.
E, claro, para uma das sobremesas sensação, o Pudim de Abade de Priscos. 
Pontos negativos, a quantidade versus preço de algumas das propostas. É certo que apesar de ser uma Taberna não estamos em terras lusas, mas ainda assim. 
Outro aspecto a assinalar é, apesar do ambiente informal, não se justificar apresentar pratos lascados/falhados, comprometendo a apresentação e a representação da marca Vista Alegre
A partir pratos que continue a ser metaforicamente e pela positiva, como tão bem conseguem fazer entre tachos.

terça-feira, 21 de março de 2017

Lima em Londres

Lima e Londres. Duas cidades. 
Lima em Londres. Numa cidade tão cosmopolita e multicultural como Londres, cabem várias cidades e há sempre um cantinho de qualquer parte do mundo.
O Peru, ou melhor, a gastronomia peruana está, muito bem, representada através dos restaurantes Lima. Os homónimos da capital peruana - existe um em Fitzrovia e outro em Covent Garden (Lima Floral) - são do chef Virgílio Martinez do Central de Lima, considerado o quarto melhor restaurante dos The World's 50 Best Restaurants em 2017.
O Lima de Fitzrovia, onde degustamos as iguarias peruanas que tanto adoramos, é igualmente um restaurante premiado, com uma sempre apetitosa estrela Michelin.
Numa noite chuvosa, bem ao estilo londrino, entramos, sentamo-nos e aguardamos, com uma ponta de ansiedade, pelos pratos que solicitámos. Um a um foram chegando. Mas antes fomos saboreando duas qualidades de pães, um de quinoa e outro de chilli, acompanhados de uma pasta de batata com iogurte.


Para refrescar a garganta chegou também o cocktail que nos iria acompanhar. Chilcano clássico, um refrescante cocktail peruano feito com Luna de Ica Accolade, sumo de lima, açúcar e ginger ale. Longe de superar a classe do aveludado Pisco Sour, mas não desilude totalmente.
Entretanto chega à mesa a primeira proposta gastronómica.
Tiradito de robalo selvagem com coco, ají Mirasol e ponzu amazónico.
Uau! Que aparência. Elegante e lindo esteticamente. Uma delicia gastronomicamente falando e degustando.
Uma pequena maravilha.


A seguir o ceviche. De legumes. Batata doce, quinoa vermelha, milho fresco e o essencial leche de Tigre, cítrico, tal como o nome da capital Peruana.
Não demos conta ao pedirmos que continha só legumes. Apesar da surpresa por nós despoletada, estava surpreendentemente bom. Deliciamo-nos até ao último pedacinho.


Momento seguinte, causaA causa é um prato elaborado com um dos principais ingredientes endógenos do Peru, a batata, a qual é originária daquelas coordenadas.
Existe centenas de variedades. Neste caso testámos quatro. Com cereais andinos, abacate Uchucuta e molho de pimenta Rocoto.
Comprovando a teoria de Aristóteles, que acreditava que na natureza há uma relação de causa e efeito, o efeito desta causa foi o de arrebatamento. 
Uma pequena e requintada maravilha estas causas.
Esperemos que, contrariando o filósofo grego, esta não seja a "causa final".


Cogumelos selvagens foi o que se seguiu. Com milho Inchicapi, achiote e sumo da flor de sabugueiro.
Substancial e delicioso.


Por fim, um prato de carne e, como o anterior, uma comida da terra. Neste caso, literalmente. 
Beef Pachamanca Duo com puré de batata amarela e raízes andinas, é o nome do prato. 
Pachamanca vem do quechua pacha, terra, e da língua aimara, em que manca significa "comida". Pachamanca é um prato típico do Perú elaborado pela cozedura através de pedras pré aquecidas.


Foi com o coração aquecido e estômago aconchegado que saímos do Lima para o frio da noite londrina.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Sabores do Barrocal Algarvio

Inverno.
Chove em Lisboa nos últimos dias. 
Encaminhamo-nos para paragens mais meridionais e a pluviosidade faz uma pausa.
À nossa espera está um fim‑de‑semana que mais parece Primavera. Isso enquanto é dia. Já à noite está frio e escuro. Bem escuro. Porque a lua apenas sorri para nós, com um traço fino. Está lua nova.
No meio da escuridão e do silêncio da noite, enquanto nos dirigimos para uma das - antecipo já com esta distância - refeições do ano, a Niebla, cadela branquinha, surpreende-nos e assusta-nos com o seu porte e ladrar.
Estamos numa aldeia do sotavento e barrocal Algarvio.
De dia percepcionamos a paisagem, a qual está linda. A natureza começa a ganhar novamente vida. A florescer.
Quando passamos pelas alfarrobeiras já cheira à fragrância da alfarroba. 


A amendoeira começa a estar em flor. 


As laranjeiras estão no tempo delas, pelo que carregadas da sua fruta. 


As figueiras, nespereiras e abricoteiras estão por ali, mas ainda não dão sinais. O seu tempo é mais lá à frente, quando o calor, enfim, chegar.
Deambulamos por terras do barrocal, essa área de transição entre a costa e a serra algarvia. Chegamos mesmo à fronteira com a região da serra, onde o xisto, aqui chamado talisca, aflora.
Absorvemos a beleza e calmitude da paisagem. Subimos a um dos pontos mais altos e avistamos a massa branca de Ayamonte, a foz do Guadiana, Vila Real de Santo António, a arquitectura bruta de Montegordo, o prédio alto de Altura. 
Continuamos a deambular. O Piri, cãozinho doçura, acompanha-nos estoicamente em toda a jornada. 
Cruzamo-nos com o senhor que produz mel. Queixa-se que mais um ano sem chover não é bom para a produção do mel. As abelhas andam por ali. Com toda a calma, como o senhor que lhes extrai o mel.
Cruzamo-nos com malvas, acelgas, cardos, aqui chamadas alcachofras selvagens, tomilho, poejo, este à beira da lagoa. E muitas mais ervas. À maioria das quais não damos importância.
Vamos dar importância à mesa, quando nos surpreendemos com uma cozinha da terra. Feita com o que a terra dá no momento e por quem conhece muito bem a terra e a cultura local.
Fazemos duas refeições caseiras memoráveis. As tais que, ainda que nos primeiros dias do ano, têm já entrada directa no top anual.
Um jantar e um almoço, em que nos acolhem amigável e gentilmente numa casa oitocentista. O ambiente surpreende. Tudo nos remete para o passado. Desde já a forma como a comida se mantém aquecida, através do aproveitamento do calor da lareira. Mas é no presente que estamos e que aproveitamos esta experiência.
A mesa está linda. Ainda pouco absorvemos do ambiente e, a partir de um tacho antigo, é-nos servida uma sopa de urtigas com gengibre e molho de soja. Pára tudo. Que magia. Parece que a poção mágica nos foi servida. Uma delicia. Indescritível. Algo de novo nos acontece. Por todos os preceitos, conversas e ensinamentos que recebemos. Fala-se de história, geografia e cultura, tudo associado à gastronomia. Riqueza profunda.
Ao centro da mesa estão azeitonas de sal (técnica especial que aproveita as azeitonas apanhadas já maduras), tremoços e figos secos, estes últimos para a sobremesa. Tanto ao jantar como ao almoço.
De seguida passamos para uma massa com acelgas. 
Tudo tão diferente, simples e saboroso. A responsabilidade é dos temperos utilizados, nomeadamente a gordura dos ossos do borrego e a banha do porco, os quais se alimentam de bolotas. Faz toda a diferença. 
De sobremesa, os tais figos deliciosos e fruta da época. Laranjas, tangerinas e maçãs.
Ao almoço do dia seguinte, já com a luz do dia a entrar pela casa, perscrutamos melhor todo o espaço. Parece que estamos noutro tempo histórico. Porém, sabemos que é no presente que estamos, ainda que vivido a um ritmo e de um modo de outros tempos. 
Por ser nova esta experiência, tem um grande impacto em nós.


A mesa está lindíssima. À nossa espera está um tomate com atum fumado, temperado com azeite, tomilho e gengibre. Não há palavras para descrever. Tudo é óptimo. O tomate sabe a tomate, os temperos dão dimensão, a conjugação de sabores é perfeita. Limpamos o azeite com pão de São Pedro de Solis.
O momento seguinte é feijoada de cales de cardo. Isso mesmo. O que a natureza dá lá fora é aproveitado entre portas. Na véspera foram as urtigas e as acelgas. Naquele momento são os cales da alcachofra selvagem.
Uma maravilha. Inusitado e reconfortante.
A encerrar a refeição figos secos, tangerinas e laranjas.
Confirmamos que a simplicidade e a vida, tal como ela é, têm um sabor especial.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Kanazawa, de Tomoaki: O Cantinho do Sublime

Chegámos largos minutos antes da hora marcada. Apesar da noite fria, não tivemos a ousadia de entrar logo e, dessa forma, pôr em causa o rigor japonês.
Esperámos pela hora certa e, então, ansiosamente entrámos no pequeno e despojado espaço do restaurante Kanazawa, do chef Tomoaki Kanazawa.
Um balcão, com capacidade para 8 pessoas, ladeia a área onde Tomoaki desempenha a sua arte. De decoração, apenas alguns apontamentos da natureza - um tronco, uma cana de bambu com uma planta-, elemento fundamental na cultura nipónica.


Posicionámo-nos nos lugares, que iríamos ocupar por mais de 3 horas, e onde participaríamos num desfile de pura beleza, delicadeza e suprema qualidade.
Dadas as boas vindas pelo chef Tomoaki, Kayo e Sakura, respectivamente sua mulher e filha, iniciou-se a nossa refeição, baseada no menu Kanazawa, o menu kaiseki mais curto (mas ainda assim muito generoso), uma das quatro opções que o restaurante oferece. As outras são o menu kaiseki mais longo (menu tasting) e dois menus de sushi, o Oyama (mais reduzido) e o Miyazaki (com mais oferta).
O primeiro momento do menu, designado Oshiki, chega. Um tabuleiro com quatro componentes, arroz de polvo, sopa miso com batata doce inteira para ser desfeita, pickles de couve, caranguejo com molho de maracujá e folha de fisalis com tomate recheado com molho de dióspiro e ovas.


Início simples, mas saboroso, a anunciar o que estava para vir e a demonstrar a importância da qualidade e origem dos ingredientes, que é revelada em todos os momentos da refeição.
No momento seguinte, Mukouzuke, foi-nos presenteada uma belíssima e saborosa composição com sashimi de maguro (atum), um surpreendente e maravilhoso sarrajão fumado braseado em casca de macadâmia e xarroco (de sesimbra) braseado em água quente e fria (conteúdo da maçã). Esta composição inclui também rábano e wasabi caseiro, acabado de ralar.
Humm…que delícia.


Estamos prontos para o momento seguinte, Wanmori, um caldo de safio e sete citrinos em fermentação de 30 dias, safio, soba tofu, caviar de salmão, enoki (cogumelos japoneses) e mitsuba (um género de coentro japonês).



Enquanto nos deliciamos com este momento reconfortante, observamos a próxima obra prima em preparação pelo chef e prestes a chegar a nós.



Com uma estética magistral, foi-nos apresentado um salmonete, arroz fermentado em molho de soja, casca crocante de escamas, pinhão torrado, cogumelos shimeji e yozu.
Que qualidade. Que minúcia e dedicação na construção de cada momento. Como não considerar tudo entusiasmante?




O momento kaiseki seguinte foi o Hassun, o qual significa 24,2 cm. Esta designação resulta de este momento, composto por uma porção de frutos do mar e outra de frutos da terra, ser servido num recipiente de madeira quadrada com esta medida.
No caso, o chef Tomoaki serviu-nos três porções. Rolo de bife de Kobe, recheado com ouriço-do-mar grelhado, caviar de sarrajão e molho de miso e kumquat
Sublime. A carne desfaz-se na boca e todos os ingredientes mesclam-se genialmente.



As outras duas porções servidas foram de peixe: solha seca por uma noite, ameixa e ovas secas de tainha (butarga); e peixe de espada branco, molho de ponzu com gelatina de romã, alho francês e trufa.
Os nossos índices de satisfação já estavam no topo, mas no momento em que o chef nos apresentou a caixa com os peixes fatiados a serem apresentados no momento seguinte, o Sushi, entrámos em órbita.
Porém, o delírio total foi quando um a um, estas preciosidades, foram chegando ao balcão, para no momento seguinte serem saboreadas nas nossas bocas. Que divino prazer.
O chef preparou e a ordem foi esta:


Sarrajão.
Pargo com molho de casca de tangerina japonesa.
Ameijoa de Setúbal.
Ouriço do mar. 
Para tudo! Questiono se estou na terra ou em terrenos celestiais. Uma maravilha. Senti um toque floral, mas o chef garante que não. Seguramente que fui transportada naquele momento para um outro nível e não dei conta.



Peixe espada, miso, flor de tangerina e sumo de tangerina.
Bomboca, um bivalve de Setúbal que não conhecia e com o qual fiquei deslumbrada.


Kâme-nôte, mão de tartaruga, que são os percebes em japonês.



Bonito seco, cozido, fumado e seco ao sol. Para tudo de novo. Fabuloso este fumado. Já anteriormente tinha ficado fascinada.


Barriga de atum (parte de cima) com caviar. Derrete-se na boca. Que d-e-l-í-c-i-a!


Barriga de atum picado com cebolinho.


10 momentos de sushi. 10 momentos de puro prazer.
Durante a elaboração do sushi, já todos mais descontraídos, o chef Tomoaki revelou-se uma pessoa bem comunicativa e simpática.
Perante algumas questões nossas foi-nos revelando alguns aspetos do seu percurso, da cultura japonesa e até ficámos a saber os seus pratos portugueses favoritos.
Cabidela e dobrada. Surpreendentemente, pratos brutos, bem diferentes da subtileza da gastronomia japonesa.
Com a felicidade a transbordar dentro de nós, avançamos para o último momento, Okashi, as sobremesas.
Aqui quem entra em acção são Kayo e Sakura, mulher e filha do chef Tomoaki.
Primeiro matcha (chá verde), warabimochi e daifuku de yuzu, os docinhos gelatinosos japoneses.


Suave e delicado a fazer a transição para o momento seguinte, composto por sorvete de romã, mousse de uva com baunilha e merengue e kiwi em geleia japonesa (amayukikan). Igualmente suave e delicioso.



Por fim, Tsuyaboshikinngyoku, os docinhos de açúcar japonês elaborados com uma incrível e elevada precisão, minúcia e delicadeza, com um exterior crocante e um interior gelatinoso, acompanhados de um origami.


Foi desta forma que terminámos uma noite incrível, onde viajámos pela cultura japonesa e por uma infinidade de sabores deliciosos e de elevada qualidade, os quais nos deixaram mais ricos e felizes.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Avó

Fomos à terra da Avó.
O sino tocou. Tantas vezes a Avó perguntou "Por quem será?".
Desta vez foi pela Avó que tocou. Se fosse no tempo do Toino Marques o sino tinha dobrado e tocado.

 

Porém, já há alguns anos que o sino deixou de ser dobrado à força dos braços. Felizmente a Avó era rija e chegou ao advento electrónico.
No dia da sua despedida, um dos primeiros dias chuvosos e frios do Outono, aproveitámos, os primos, para reavivar e vivenciar as memórias de quando éramos pequenos e o Verão não tinha fim. 
Subimos pelas terras acima, como tantas vezes fizemos com a Avó, à procura das referências das nossas infâncias. Os castanheiros onde colhíamos folhas para fazermos os chapéus dos índios. As outras árvores cujos galhos eram a matéria prima para fazermos os arcos e flechas. Quase sempre queria ser dos índios. 
Lá estava também a silva das amoras silvestres, agora despida pela estação do ano, sobre a qual o Miguel, pequenito, a tentar apanhar amoras caiu e ficou preso. Claro que, eu, como prima mais velha, o ajudei a sair desse apuro. 
Procurámos alcançar com os olhos a Pedra d' Aire, que naqueles tempos parecia-nos muito longe e quase inalcançável. Hoje, sim, difícil de alcançar pela vedação entretanto colocada.
Entrámos pelo quintal da casa da tia Natércia. Aquela casa sempre nos fascinou pela grande dimensão. 
Fomos à fruta alheia. Inevitavelmente. As árvores da tia Natércia foram visadas. Inevitavelmente.
Desta vez não fomos aos figos, nêsperas e outras frutas de Verão. Fomos antes às frutas de Outono. Pela primeira vez apanhei dióspiros. Como a árvore estava esplendorosa cheia de tons laranja.



Apanhámos também castanhas. Muitos quilos dos castanheiros da família. Enfim, frutas de Outono. Período que nunca íamos à terra da Avó. 
O Outono era o período que a Avó voltava a Lisboa, muitas vezes depois do dia de finados, para regressar novamente e ansiosamente pela Primavera, quando o tempo aquecia de novo. Desta vez, ironia da vida, regressou à terra no Outono, logo a seguir aos finados...
Depois de palmilharmos terras acima, pelas Tapadas, regressámos a casa. À cozinha, espaço central e a maior divisão da casa. Era ali onde passávamos grande parte do tempo quando não estávamos a brincar na rua. Era ali que a Avó fazia as suas melhores iguarias. Os pastéis de bacalhau. O cabrito assado. A sua deliciosa tigelada. A geleia e marmelada. O seu Pão de Ló, talvez a sua pérola gastronómica mais aclamada, cuja receita e segredos me passou quando já estava debilitada.
Um dia destes tenho que testar, para ver se consigo por em prática os ensinamentos.
Na loja da casa, onde em tempos a Avó vendia vinho e outras coisas, fica o lagar, sítio que no passado já longínquo, os homens pisavam as uvas. Sempre tive fascínio por esse momento e sonhava crescer para, com altura para não me afogar, participar nessa actividade. 
Quando cresci caíram em desuso as técnicas ancestrais de pisar a uva e a Avó deixou também de produzir vinho.
Era nesse espaço, a loja, onde a Avó deixava criar mosto no vinho para depois fazer vinagre. Como eu gosto desse vinagre. Forte e de elevada acidez. Por vezes até faz chorar de tão intenso.
Chorámos por ti. As lágrimas confundiram-se com a chuva que caía. 
Porém, sei de alguém que lá em cima te esperava com um sorriso na cara. O Pai.
Até sempre.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Claro


Este prato foi o primeiro, de vários, a ser apresentado. E foi também o que mais gostei.
Bacalhau à Conde da Guarda. 
Excelente reinterpretação do prato tradicional. Muito saboroso. Contrastante. Nos sabores e temperaturas. Bacalhau quente, mais adocicado e cremoso. Tomate frio, refrescante e mais ácido. 
Enfim, prato extraordinariamente bem conseguido e início perfeito.
É um dos clássicos de Vítor Claro, o chef que explanou até há poucos dias a sua arte na cozinha do restaurante homónimo do seu apelido. O Claro situava-se em Paço de Arcos, junto à marginal, debruçado para horizontes meridionais e marítimos.
Nunca tinha experimentado a cozinha do chef Claro, considerado um dos mais talentosos da sua geração, apesar de agora ter decidido fazer uma pausa na sua actividade para desenvolver os seus vinhos no norte Alentejano. 
Num dos últimos dias de abertura do restaurante, numa adorável oferta, acabei por conhecer o trabalho de Vítor Claro.
Percorremos um menu baseado nos clássicos do chef.
Depois do prato inaugural, que num alinhamento mais ortodoxo, provavelmente seria apresentado mais à frente, o que não me fez confusão nenhuma, antes pelo contrário, seguimos para algo mais ao estilo de entrada.
Carapau alimado e azeite de pimento verde. Fresco, delicado e suave. Outra das propostas que me souberam melhor.


De seguida foi apresentada uma das criações mais conhecidas de Vítor Claro, o raviolo de gamba e cogumelos Santi Santamaria.  Trata-se de uma homenagem ao chef catalão, falecido precocemente, Santi Santamaria, com quem o chef Vítor Claro trabalhou.
O prato é composto por um carpaccio de gamba, a fazer a vez da massa, e cogumelos de recheio. Muito original na concepção técnica e igualmente saboroso.


A proposta seguinte (faltou a fotografia) foi filete de foie gras de pato, alperce seco cozido com especiarias. Complexo como o foie gras consegue ser, mas ao mesmo tempo delicado a desfazer-se na boca e equilibrado na conjugação com o alperce seco.
O prato de peixe apresentado foi caldo de peixe e verduras. No caso, lombo de corvina com molho do mesmo e ervilhas.
Não me cativou. Apesar do caldo saboroso, o peixe apresentou-se demasiado seco.


A primeira proposta de carne apresentada, demonstrou como as natas podem ser um elemento interessante na culinária.
O entrecosto de vitela grelhado, espinafres e molho do assado configurou-se um prato muito bem conseguido. Carne saborosa, com o paladar reforçado com o contraponto do molho de natas ácidas. Gosto e carácter distinto. Um prato com personalidade.


Para terminar, antes da sobremesas, um prato teoricamente nada ligeiro. Bochecha de porco Alentejano com grão e enchidos. 
Apesar da composição intrinsecamente pesada, funcionou muito bem como culminar e não se sentiu dificuldade nenhuma de ingestão.
A suavidade e maciez da carne contribuiram para isso e para nos deliciarmos com este prato tradicional, muito bem confeccionado.


Como primeira sobremesa, em substituição dos previstos queijos, refrescámos o palato com um granizado de melão com iogurte. Simples, fresco e dual, com o doce do melão a intervalar com o amargo do iogurte. 


A terminar, Leite Creme Bonsai. A designação deste prato surge a partir do nome do restaurante que criou esta receita, o japonês Bonsai. 
A história é simples. Em tempos, o chef Vítor Claro fez uma permuta de receitas com o, seu amigo, chef do Bonsai Ricardo Komori. 
Em troca da receita do Bacalhau à Conde da Guarda de Claro, Komori deu a receita do seu leite creme.



É assim, que o Leite Creme Bonsai, muito equilibrado nos níveis de açúcar, passou a ser um clássico de Vítor Claro.
Suavidade, no gosto, e ternura, pela partilha entre dois amigos, são palavras que descrevem este doce.
Duas palavras fundamentais na vida.