Mostrar mensagens com a etiqueta japonês. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta japonês. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Kanazawa, de Tomoaki: O Cantinho do Sublime

Chegámos largos minutos antes da hora marcada. Apesar da noite fria, não tivemos a ousadia de entrar logo e, dessa forma, pôr em causa o rigor japonês.
Esperámos pela hora certa e, então, ansiosamente entrámos no pequeno e despojado espaço do restaurante Kanazawa, do chef Tomoaki Kanazawa.
Um balcão, com capacidade para 8 pessoas, ladeia a área onde Tomoaki desempenha a sua arte. De decoração, apenas alguns apontamentos da natureza - um tronco, uma cana de bambu com uma planta-, elemento fundamental na cultura nipónica.


Posicionámo-nos nos lugares, que iríamos ocupar por mais de 3 horas, e onde participaríamos num desfile de pura beleza, delicadeza e suprema qualidade.
Dadas as boas vindas pelo chef Tomoaki, Kayo e Sakura, respectivamente sua mulher e filha, iniciou-se a nossa refeição, baseada no menu Kanazawa, o menu kaiseki mais curto (mas ainda assim muito generoso), uma das quatro opções que o restaurante oferece. As outras são o menu kaiseki mais longo (menu tasting) e dois menus de sushi, o Oyama (mais reduzido) e o Miyazaki (com mais oferta).
O primeiro momento do menu, designado Oshiki, chega. Um tabuleiro com quatro componentes, arroz de polvo, sopa miso com batata doce inteira para ser desfeita, pickles de couve, caranguejo com molho de maracujá e folha de fisalis com tomate recheado com molho de dióspiro e ovas.


Início simples, mas saboroso, a anunciar o que estava para vir e a demonstrar a importância da qualidade e origem dos ingredientes, que é revelada em todos os momentos da refeição.
No momento seguinte, Mukouzuke, foi-nos presenteada uma belíssima e saborosa composição com sashimi de maguro (atum), um surpreendente e maravilhoso sarrajão fumado braseado em casca de macadâmia e xarroco (de sesimbra) braseado em água quente e fria (conteúdo da maçã). Esta composição inclui também rábano e wasabi caseiro, acabado de ralar.
Humm…que delícia.


Estamos prontos para o momento seguinte, Wanmori, um caldo de safio e sete citrinos em fermentação de 30 dias, safio, soba tofu, caviar de salmão, enoki (cogumelos japoneses) e mitsuba (um género de coentro japonês).



Enquanto nos deliciamos com este momento reconfortante, observamos a próxima obra prima em preparação pelo chef e prestes a chegar a nós.



Com uma estética magistral, foi-nos apresentado um salmonete, arroz fermentado em molho de soja, casca crocante de escamas, pinhão torrado, cogumelos shimeji e yozu.
Que qualidade. Que minúcia e dedicação na construção de cada momento. Como não considerar tudo entusiasmante?




O momento kaiseki seguinte foi o Hassun, o qual significa 24,2 cm. Esta designação resulta de este momento, composto por uma porção de frutos do mar e outra de frutos da terra, ser servido num recipiente de madeira quadrada com esta medida.
No caso, o chef Tomoaki serviu-nos três porções. Rolo de bife de Kobe, recheado com ouriço-do-mar grelhado, caviar de sarrajão e molho de miso e kumquat
Sublime. A carne desfaz-se na boca e todos os ingredientes mesclam-se genialmente.



As outras duas porções servidas foram de peixe: solha seca por uma noite, ameixa e ovas secas de tainha (butarga); e peixe de espada branco, molho de ponzu com gelatina de romã, alho francês e trufa.
Os nossos índices de satisfação já estavam no topo, mas no momento em que o chef nos apresentou a caixa com os peixes fatiados a serem apresentados no momento seguinte, o Sushi, entrámos em órbita.
Porém, o delírio total foi quando um a um, estas preciosidades, foram chegando ao balcão, para no momento seguinte serem saboreadas nas nossas bocas. Que divino prazer.
O chef preparou e a ordem foi esta:


Sarrajão.
Pargo com molho de casca de tangerina japonesa.
Ameijoa de Setúbal.
Ouriço do mar. 
Para tudo! Questiono se estou na terra ou em terrenos celestiais. Uma maravilha. Senti um toque floral, mas o chef garante que não. Seguramente que fui transportada naquele momento para um outro nível e não dei conta.



Peixe espada, miso, flor de tangerina e sumo de tangerina.
Bomboca, um bivalve de Setúbal que não conhecia e com o qual fiquei deslumbrada.


Kâme-nôte, mão de tartaruga, que são os percebes em japonês.



Bonito seco, cozido, fumado e seco ao sol. Para tudo de novo. Fabuloso este fumado. Já anteriormente tinha ficado fascinada.


Barriga de atum (parte de cima) com caviar. Derrete-se na boca. Que d-e-l-í-c-i-a!


Barriga de atum picado com cebolinho.


10 momentos de sushi. 10 momentos de puro prazer.
Durante a elaboração do sushi, já todos mais descontraídos, o chef Tomoaki revelou-se uma pessoa bem comunicativa e simpática.
Perante algumas questões nossas foi-nos revelando alguns aspetos do seu percurso, da cultura japonesa e até ficámos a saber os seus pratos portugueses favoritos.
Cabidela e dobrada. Surpreendentemente, pratos brutos, bem diferentes da subtileza da gastronomia japonesa.
Com a felicidade a transbordar dentro de nós, avançamos para o último momento, Okashi, as sobremesas.
Aqui quem entra em acção são Kayo e Sakura, mulher e filha do chef Tomoaki.
Primeiro matcha (chá verde), warabimochi e daifuku de yuzu, os docinhos gelatinosos japoneses.


Suave e delicado a fazer a transição para o momento seguinte, composto por sorvete de romã, mousse de uva com baunilha e merengue e kiwi em geleia japonesa (amayukikan). Igualmente suave e delicioso.



Por fim, Tsuyaboshikinngyoku, os docinhos de açúcar japonês elaborados com uma incrível e elevada precisão, minúcia e delicadeza, com um exterior crocante e um interior gelatinoso, acompanhados de um origami.


Foi desta forma que terminámos uma noite incrível, onde viajámos pela cultura japonesa e por uma infinidade de sabores deliciosos e de elevada qualidade, os quais nos deixaram mais ricos e felizes.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pequeno-Almoço Japonês

Já foi possível perceber que há requinte nas refeições japonesas. Mas esse brio não é só ao almoço ou ao jantar. Na primeira refeição do dia, o pequeno-almoço, para muitos considerada a mais importante, o esmero é idêntico. Mais, por momentos ficámos mesmo na dúvida se não se enganaram na hora do dia, porque pela diversidade e quantidade mais parece que a refeição é outra.
Arroz, salada, sopa miso, carne de Hida, tofu, sashimi, diversos vegetais, pickles, mousse de chá verde foram alguns dos elementos servidos no pequeno-almoço no ryokan de Takayama.
Em Hirayu, o início do dia não podia ser mais inspirador.

Tofu, peixe, omelete japonesa (tamago), salada, pickles, pasta de peixe, caldo de cogumelos e vegetais, arroz, sakura, sopa de miso foram algumas propostas apresentadas num pequeno-almoço em Hirayu.
Noutro dia, também em Hirayu, a oferta foi peixe grelhado, sashimi, vegetais locais, tofu, arroz, sopa miso, ovo com vegetais e cogumelos.
Os japoneses tratam-se e tratam-nos bem.

Ishikawa

Na nossa viagem ao Japão tínhamos como um dos objectivos ir a um restaurante de topo. A dificuldade inicial foi a escolha, uma vez que o Japão é o local do mundo com mais restaurantes com estrelas Michelin (cerca de seis centenas) e, adicionalmente, o país com mais restaurante com três estrelas.
Para ajudar à difícil escolha recorremos à lista Asia's 50 Best Restaurants de 2014. Depois de várias avaliações, de uma tentativa de marcação frustrada noutro restaurante (não é fácil reservar um restaurante no Japão porque para além de exigirem marcação telefónica, por vezes não aceitam marcação de não japoneses e, noutros casos, com meses de antecedência já não há lugares, até porque diversos restaurantes são muito pequenos), lá chegámos à escolha final.
Essa escolha recaiu no número 16 da lista dos 50 melhores restaurantes da Ásia, o Ishikawa, em Tóquio.
Numa noite, quente e chuvosa de Julho, vestígios do Tufão que ocorreu no sul do país e se aproximava da capital, fomos a este restaurante galardoado com três estrelas Michelin.
O Ishikawa é um pequeno restaurante, numa casa de madeira escura, que comporta quatro salas privadas e um balcão com sete lugares. Num ambiente elegante, luminoso pelo mobiliário em madeira de cipreste, deliciámo-nos com uma culinária japonesa requintada.
Apesar de toda a elegância e requinte presentes, o ambiente do restaurante é completamente despretensioso e informal.
Sentámo-nos ao balcão, o que nos permitiu assistir bem de perto à confecção do menu ao estilo kaiseki por parte do chef Hideki Ishikawa e do seu sub-chef. Essa proximidade permitiu também uma grande interacção com ambos ao longo de todo o jantar.
Tudo a postos e depois de termos escolhido o saké que acompanharia a refeição, começou o desfile dos pratos.
O deslumbre chegou  à mesa.
Como entrada veio crina de caranguejo e beringela grelhada com uma pitada de gengibre. Para além de um início delicioso, começou também o desfile de loiças lindíssimas, como é apanágio de uma refeição em terras nipónicas.
Seguimos a refeição com um prato grelhado, no caso bife japonês e raiz de lótus com casca. Soberbo.
Passámos para a sopa, com bolinho de tartaruga de casca mole com escudo de água e legumes juliana. Maravilhosa.
O prato seguinte foi sashimi de besugo decorado com algas frescas e ervas japonês. Irrepreensível.
Apresentaram-nos outro prato grelhado. Desta vez peixe Ayu com ervas "Tade" grelhado no carvão. Estes peixes são grelhados ainda vivos. Crocantes, surpreendentes e deliciosos.
Prosseguimos com outro sashimi, agora de lula com sésamo e gengibre. Igualmente irrepreensível.
De seguida deliciámo-nos com um picadinho de enguia com pasta de ameixa vermelha e tronco Taro. Fantástico.
O prato seguinte foi baleia "Lardo", cera de abóbora e tofu com ovos.
Como manda a tradição kaiseki, o último prato antes da sobremesa, foi arroz branco com camarão sakura e milho, sopa miso e vegetais em pickles.
A sobremesa foi uma melancia fresca com gelatina cointreau e leite de coco. Simples e fresca.

Fechámos esta refeição mágica com chá verde japonês.
Tratou-se de uma experiência muito rica. Para além da alta e refinada qualidade, quer dos produtos, confecção e apresentação, destaque para a simpatia e informalidade de todo o staff.
Ao longo da refeição, enquanto, entre outras preparações, o peixe estava a ser fatiado para sashimi, o wasabi estava a ser preparado, fomos falando com os chefs, nomeadamente sobre o nosso país de origem, aspecto que trouxe, simultaneamente, surpresa e emoção ao chef  Hideki Ishikawa, acerca da nossa viagem pelo Japão, que trouxe alguma apreensão quando revelámos que iriamos no dia seguinte fazer a ascensão do Monte Fuji, por o tufão do sul do país se estar a encaminhar para norte.
A culminar toda esta experiência fantástica, tivemos a despedida mais bonita e surpreendente de sempre num restaurante.
Para além de nos terem dado num saco de papel duas bolinhas de arroz com camarão sakura para o dia seguinte (haverá maior despretensão que isto?), o chef e uma das suas colaboradoras acompanharam-nos até ao exterior do restaurante e ficaram no topo da rua a dizerem-nos adeus. Enquanto nós, deliciadas e felizes com tudo, fomos descendo a rua a olhar para trás a retribuir o aceno de despedida.
Surpreendente, emocionante e fascinante são as palavras.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Kaiseki em Hirayu - Parte 2

Ao segundo dia em Hirayu voltámos a ter um jantar kaiseki. O menu foi este.
Não dá para perceber?
Uma ajuda, lê-se de cima para baixo e da direita para a esquerda.
Continua difícil a leitura?
Passo a explicar. Como sakizuke, ou seja, de entrada, semelhante ao amuse-bouche francês, tivemos alforreca envolta com molho de ameixa Ume, agrião e carvão lavado.
A seguir veio um combinado de entradinhas (Shunsai). Salmão local de Okuhida, carne de caranguejo com espinafre em pó, lulas enrolada com ovas de bacalhau, coalhada de feijão de soja verde.
Depois o sashimi veio com o modelito de praia. Salmão local de Okuhida com rabanete.
Logo a seguir, antes dos pratos principais (Shinogi), tivemos oportunidade de saborear nigiri de carne de Hida coberto com pimenta japonesa Sanshou, lima Sudachi e gengibre adocicado.
O primeiro prato principal, designado Yakimono, por ser grelhado num recipiente de barro, foi robalo grelhado com miso e molho de pimenta de água.
O nimono, ou seja, o prato cozido, foi polvo, raiz de lótus estufada, feijão verde com molho de mostarda e halite.
O agemono, prato frito, consistiu em bolo de arroz cozido e frito envolto com camadas secas da pele de leite de soja e tempura de legumes.
De seguida saboreámos o prato de carne (Konro), que consistiu num bife de Hida com molho de soja com sementes de sésamo e vinagre.
Como dita a tradição, a refeição encerrou com shokuji, arroz de Hida Koshihikari; konomono, pickles locais; e tomewan, sopa miso de Takayama, com cebola verde, flocos emaranhados, gluten de trigo seco enrolado.
De mizugashi, sobremesa, saboreámos uma toranja com brandy de cereja.
Mais uma vez tivemos uma refeição espantosa, onde ficou novamente patente que os kaisekis são uma forma de arte que equilibra sabores, texturas, apresentação, beleza, ingredientes frescos sazonais e muita qualidade.