quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Felicidade na Forma de Fruta, Sumos e Gelados | Colômbia

Como já referido no post inaugural da Colômbia, sobre a comida na obra de Fernando Botero, a fruta é uma presença muito forte no quotidiano colombiano.
Por onde passamos, cruzamo-nos sempre com os mais diversos frutos. As várias regiões geográficas da Colômbia, marcadas por climas distintos, contribuem para uma enorme diversidade de ecossistemas, os quais proporcionam uma multiplicidade de ingredientes, muitos deles estranhos ao nosso olhar e palato.
Assim, cruzarmo-nos na rua com vendas e vendedores ambulantes a transportarem essa diversidade é uma constante, embora por vezes se especializem apenas numa fruta.



Com essas montras à nossa disposição tivemos a oportunidade de nos deliciar com diversos frutos na sua forma natural, muitas vezes cortados artisticamente pelos vendedores, mas também de fruir na forma líquida de sumo ou na de gelado.
Não sairá da memória a manga biche, ou seja, a manga verde cortada aos palitos e temperada com sal que mais do que uma vez comprámos na rua.



Para quem gosta de fruta, poder experimentar todos os dias uma nova espécie e sabor é algo fascinante.
Imagine-se para quem adora, como é o meu caso.
O paraíso é ali!
Borojó, corozo, carambola, pitaya, curuba, feijoa, granadilla, uchuva (físalis), guanabana (graviola), lulo, zapote, mamón, níspero, mandarina (tangerina), manga, melão, melancia, morango, banana, laranja, abacaxi, papaia, goiaba, limão, maracujá, tamarindo, coco, maçã, amora, ...
De uma forma ou de outra fomo-nos cruzando com estas frutas. Porém, foi no mercado de Paloquemao, em Bogotá, que conseguimos, num único espaço, ter acesso a toda essa diversidade.






Em sumo experimentámos corozo, granadilla, lulo, guanabana, feijoa, tomate del arbol, melancia, limão, mandarina, coco, coco-limão, amora, manga.

Sumo de tomate del arbol e melancia, no Parque de Tayrona


Claro que uns são mais saborosos do que outros (dos sabores que não conhecia voto no guanabana), mas é sempre um privilégio poder beber um sumo natural num estabelecimento, na praia ou na rua.




Em gelado, que é algo que amamos, deliciámo-nos com mango biche (manga verde), feijoa, tamarindo, mandarina, coco, zapote, lulo, níspero.
Experimentámos também salpicon, gelado com uma mistura de frutas.
Saboreámos tanto na forma de palete (gelado de pauzinho) como em gelado de bola.
A forma não interessa. A essência, sim. Foi sempre excelente, nomeadamente os artesanais, que se vendem mesmo em casas privadas em Vila Leyva e Barichara.


Gelados artesanais em Vila Leyva: Feijoa
Gelateria Paradiso, em Cartagena
 
 Gelateria Paradiso, em Cartagena
 La Paletteria, em Cartagena
Ciocolatto, em Cartagena


Paleta de coco, mango biche, mandarina e níspero

 Paleta artesanal de tamarindo, em Vila Leyva


Como se pode perceber na Colômbia faz-se facilmente uma salada de frutas bem composta e diversa.
E mais do que isso, facilmente se é feliz.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma Viagem pela Colômbia - Ponto de Partida: Mini-Mal

Depois de um dia em viagem transatlântica, a alimentarmo-nos da comida muito pouco entusiasmante de aeroporto e avião, enfim aterrámos em El Dorado, Bogotá.
Do aeroporto fizemo-nos, com a barriga cada vez mais a exigir alimento, às estradas e ruas da capital da Colômbia, em direcção a Chapinero Alto, o bairro onde nos estabelecemos.
Enquanto chovia lá fora, o táxi deambulava perdido pelas calles, que aqui têm a designação de números. A 66 estava difícil de encontrar. Mas, enfim, demos com o destino final. 
Malas depositadas no hotel, seguimos para a nossa primeira refeição em solo colombiano. Enquanto isso, nas ruas de Chapinero Alto o céu continuava a desabar.
O carro parou à porta de uma moradia e corremos os metros finais, a fugirmos da chuva, para entrarmos no Mini-Mal, onde iniciámos a viagem, esta sem jet lag, pelos ingredientes e sabores colombianos.
E que começo.
O restaurante tem como filosofia efectuar um exercício de investigação-criação gastronómica com os produtos locais do país e com isso valorizar e proporcionar a apreciação da diversidade e a tradição cultural contida na Colômbia, um dos países com maior diversidade no mundo.
Num espaço simples e agradável, outrora uma moradia habitacional, um jovem de Cali, deu-nos as boas vindas e encheu-nos de simpatia, algo que foi uma constante em toda a nossa estadia na Colômbia.
Esse jovem, descendente de escravos africanos, conduziu-nos pelos sabores e ingredientes que se foram apresentado ao longo da noite.
Com poucas horas de Colômbia conseguimos fazer uma viagem desde a Costa do Pacífico, à Costa das Caraíbas, passando pela selva amazónica assim como por outras regiões colombianas.
Começámos com um delicioso sumo de granadilla e por uns bolinhos de banana madura recheados de carne de jaiba (caranguejo) guisada em leite de coco e picante suave.


Hmm...acabarmos de chegar a um destino longínquo e termos o privilégio de saborear algo tão diferente exponencia o impacto desta experiência.
De seguida ventos costeiros trrouxeram-nos à mesa arrullos. Frutos do mar (camarão tigre, polvo e lulas) em leite de coco, caril verde sobre chancacas (cocadas ácidas).


Iguaria deliciosamente exótica.
De platos fuertes, que é como quem diz pratos principais, chegou-nos de peixe Arawak Karib. Trata-se de filetes de robalo panados em mañoco (farinha de yuca brava) banhados num molho ligeiramente picante de goiaba, feijoa e endro acompanhados de inhame com suero costeño e salada.
Assim de repente iniciámo-nos numa série de ingredientes que nos acompanharam nas semanas seguintes. Frutas como goiaba e feijoa. Plantas como yuca (mandioca selvagem) e inhame.
O conjunto é algo de distinto e incrível, onde a doçura da goiaba contrasta com o cítrico da feijoa, com o sabor neutro da yuca, sobressaído pelo suero costeño, e cruza-se com o crocante da polme da fritura do peixe.
Muito bom.

Mini-
O prato de carne escolhido foi o Selva Adentro. Como indicia o nome trata-se de uma viagem ao interior da selva e à sua essência e produtos.
Recomendações, mergulhar sem filtros.
Este prato é constituído por morrillo (correspondente ao acém) de carne de vaca braseado com molho de tucupí amazónico (extracto de yuca brava), de sabor muito intenso, que é um pouco doce e também ácido, e foi servido com arroz branco e salada.
Ah, e o que é que há na selva? Por exemplo, formigas... Isso, esse prato tem também formigas (elementos mais escuros na fotografia). Formigas culonas, da região de Santander.
Formigas grandes. Diferentes da mais amigável (ao palato) sauva, uma formiga amazónica, que tivemos a oportunidade e o prazer de saborear no D.O.M., em São Paulo.



Por fim, terminámos a refeição com algo mais comum aos nossos hábitos alimentares, um gelado artesanal de canela da marca Selva Nevada.
Com esta refeição, a Colômbia gritou-nos as boas vindas.
Lá fora a chuva parou e sentimos que o momento chegou. 
Vamo nos embrenhar pela Colômbia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Arte Apetecível | Botero e as Frutas Colombianas

Colômbia.
Um dos artistas mais consagrados deste país da América do Sul é Fernando Botero.
Conhecido pelas suas figuras de volumes exagerados, a sua obra expressa bem a influência do ambiente endógeno daquele país tropical.
Apesar de o artista ser oriundo de Medellín, é na capital Bogotá que se encontra o Museu Botero.
Foi aí que nos cruzámos com inúmeros quadros relacionados com comida, sobretudo com fruta.
São diversas as naturezas-mortas que Botero criou. Muitas delas apresentam uma vivacidade tropical contagiante.
 
 
 
 
As bananas de proporções exageradas não são apenas mera representação do artista. Existem mesmo. Vimo-las, e surpreendemo-nos com a sua dimensão, no mercado Paloquemao, em Bogotá.

 
Considerando que a visita ao museu foi no final da nossa viagem, este quadro acabou por ser a síntese dos sabores e texturas com que nos cruzámos.
Estão aqui muitas das frutas em que tropeçámos. As que conhecíamos e aquelas que nunca tínhamos tido o prazer de ver e experimentar, como zapote, lulo, mamones, pitaia amarela, feijoa, e muitas outras.
 


Botero em algumas das obras conjuga a natureza-morta com as cidades de matriz colonial. Uma delícia.


E o que dizer dos maravilhosos sumos naturais, que foram uma constante prazerosa nos nossos dias por estas coordenadas.

 
Ah, e os gelados!
Percebemos bem o prazer desta senhora.
Sem problemas, podemos comer sem culpa. Os traços redondos da figura, neste caso, são apenas estilo de expressão de Botero. Na realidade nada disto acontece.

 
Como resistir à tentação desta mesa?


 Ninguém resiste.


Mas neste país não há espaço para culpa nem pecado. Por isso, beber não é acção para esquecer, antes para celebrar a vida.
Venha uma Aguila para a senhora do quadro.


Celebremos a vitória do Atlético Nacional (das cores do vestido da senhora), de Medellín, campeão da Copa dos Libertadores.
Celebremos que a nossa viagem vai começar.
Descanso?


Só no fim da viagem.
Que le vayas bien!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Herdade do Esporão

O céu estava assim.


De um azul perfeito.
O dia apresentava-se magnífico. O quente da Primavera a roçar o Verão fazia sentir-se.
O enquadramento e a paisagem não deixavam espaço para desilusões. Muito antes pelo contrário.



Posicionámo-nos para usufruir de toda a envolvente, numa mesa no exterior, porque as condições exigiam.
Chega o pão, a manteiga envelhecida e o azeite. Apoiados por bases em cortiça, o pão, madeira, a manteiga, e madeira e cortiça o azeite.
Tudo produção da Herdade. Do Esporão. É no seu restaurante, em Reguengos de Monsaraz, sob a batuta do chef Pedro Pena Bastos, que estamos prestes a iniciar a nossa refeição, o menu de degustação Montanheira.


Com a planície alentejana, ponteada por vinha e com a albufeira da Caridade como pano de fundo, começamos a degustar os azeites (Galega, Selecção e Cordovil). Do mais ácido para o mais suave. Óptimos. O pão, crocante e muito delicioso, mostra a elegância e a qualidade da base que o acompanha.

 
 
O flight de vinhos inicia-se. Entram em cena o Monte Velho Branco 2014 e Teste 3.1 Branco 2013, um vinho totalmente biológico.


É com este acompanhamento vínico que saboreamos, regozijamos e deliciamos os snacks que começam a desfilar com toda a classe.
Base de alga nori com creme bacalhau, ovas e funcho. Óptimo início.


De seguida algo que adorei e, inexplicavelmente, não me lembro do que continha. Apenas registo a tinta de choco e a flor comestível...


Beignet de creme de cogumelos silvestres, creme de limão, sal de pinheiro e chá de pinheiro. Com um efeito visual e gustativo divino.


Creme de alho verde, com ervilhas e trufas. Irrepreensível.


Capítulo encerrado com nota máxima.
Iniciamos a próxima fase, a refeição propriamente dita. Surge a cavala com tangerina, pepino e manjerona, que se faz acompanhar por um 2 Castas 2015 e Esporão Reserva Branco 2012. Vence este último na melhor harmonização com este prato fresquíssimo e muito primaveril.


O peixe chega à mesa. Salmonete, courgete, lagostim do rio e mexilhão. Vermelho 2011 e Esporão Reserva Branco 2013 são os vinhos que refrescam este prato.



Será que estava bom? A imagem não engana. Prato muito equilibrado e bem conseguido.
 

Perfeito.
Os pratos de carne: borrego alentejano com alcachofras e alperce ou entrecôte de novilho com raiz de aipo e cebolas.

 
 
Vieram os dois para a mesa. Embora tenha-me dedicado ao segundo, pois borrego é uma carne que não aprecio.
O entrecôte surgiu muito macio e bem acompanhado.
Este prato fez-se acompanhar por dois tintos, Quinta dos Murças Reserva 2010 e Esporão Reserva Tinto 2013.


Como pré sobremesa leite de ovelha com pólen e trigo sarraceno. Tudo para dar errado para o meu lado. Detesto leite. Repulso ovelha. Odeio leite de ovelha. Mas deu tudo certo. Apresentado na forma de gelado, sabor suave e delicado, a contrastar com o crocante do pólen e do trigo.
O vinho que acompanhou esta sobremesa foi uma grande surpresa. Late Harvest 2014. Um verdadeiro suminho de beber e chorar por mais.
 
 
Citrinos com funcho e aveia foi a sobremesa. Parece que foi feita à minha medida, ou não fosse uma amante dos cítricos, aqui na forma de gelado, merengue, pó, espuma.


A acompanhar o espumante Herdade do Esporão 2012.
 

Por fim, enquanto nos deixámos estar noutra parte da esplanada, a absorver a paisagem, chegaram umas delicadezas para fechar a refeição. Brigadeiro, marshmallows, foram alguns dos petits fours.


Um toque que tornou este dia ainda mais doce e saboroso.
Como não agradecer por tudo?