terça-feira, 12 de maio de 2015

Giro Gastronómico Italiano

Itália é um excelente destino em diversas dimensões.
No capítulo gastronómico é sucesso garantido. Numa recente viagem à Toscânia e a Bolonha aproveitámos da melhor forma para conhecermos e deliciarmo-nos com os sabores locais.
O inicio foi muitas vezes assim.
E no final o resultado foi sempre este.
Em Florença, visitámos o Mercato Centrale, que, recentemente, ganhou uma nova vida.
O piso debaixo mantém, desde sempre, as tradicionais bancas de legumes, frutas, carne, peixe, pão e alguns recantos gastronómicos ali estabelecidos há décadas.
Já o piso de cima, fechado durante anos, foi reconvertido em praça de restauração, à semelhança do que se tem vindo a observar em diversas cidades, nomeadamente em Lisboa. Esta acção dinamizou aquele espaço e trouxe-lhe uma nova alma.
Tivemos experiências gastronómicas em ambos os pisos do mercado. No de cima saboreámos uma pizza, ao estilo napolitano, na Pizzeria Sud.
No piso de baixo, estabelecemo-nos no Da Nerbone, espaço que existe desde 1872. Trata-se de uma banca de comida, pelo que implica ficar na fila para fazer o pedido e só depois, caso haja lugar, é que nos sentamos nas mesas existentes à frente do balcão. É um lugar verdadeiramente popular, quer entre os locais como os turistas. Assim, lado a lado nas mesas corridas, encontra-se o local engravatado com a turista nipónica ou o local reformado com a turista portuguesa.
 
Pedimos um prato de pasta, rigatoni al sugo di melanzane, um género de penne com beringela, carne de peru aromatizada com ervas, pão e um quartini di vino rosso, ou seja, um quarto de vinho tinto Toscano. A oferta é toda ela tradicional, sem requintes mas com grande qualidade e sabor.
Saborosas foram igualmente outras experiências tradicionais que tivemos. No Trattoria Da Sergio entramos para experimentar a bistecca alla fiorentina. Contudo, achámos que 1 kg de carnuncha, quantidade mínima servida, seria demasiado para os nossos estômagos. Carnívora mas non troppo.
Optámos assim por trippa alla fiorentina, espinafres salteados, penne al ragu, quartini di vino rosso e de sobremesa cantuccini com vino santo. Esta sobremesa/doce típico da Toscânia foi uma agradável surpresa. Embeber os cantuccini, feitos com amêndoa, no vino santo, tradicional vinho de sobremesa, tem tanto de simples como delicioso.
No Il Vinaino, iniciámos com um delicioso calciofini e salame alla fiorentina, isto é, alcachofra e salame. Maravilhoso. Prosseguimos com risotto de espinafres e tortelloni al ragu.
No I’Mangiarino pedimos uma tavola de enchidos para petiscarmos. Presunto, salames diversos, queijos. Tudo fabuloso. Comemos ainda crostini de lardo com tomate seco, uma verdadeira revelação positiva. É espantoso como uma gordurinha, no caso do porco, pode ser tão saborosa. E terminámos com um pici al pomodoro, um spaghetti grosso com tomate.
Ainda em Florença, tivemos uma experiência 100% italiana, o aperitivi ou apericena, o correspondente à happy hour. Muitos bares, no período entre as 18h00 e as 22h00, oferecem a possibilidade de ao preço de uma bebida acompanharmos a mesma com um buffet diversificado de comida, o que permite que fiquemos confortáveis a preços muito razoáveis. Basicamente por volta de 8€ a 10€, o preço normal de uma bebida branca ou cocktail, podemos beber e comer. Foi o que fizemos na esplanada do Zoe, do outro lado do rio Arno, onde bebemos um Negroni e um Aperol Spritz, bebidas clássicas italianas, e comemos diversas iguarias.
Na região de Chianti, uma das principais áreas vinícolas da Toscânia, em Greve in Chianti, a terra da praça triangular, entrámos na Macelleria Falorni, existente desde 1806. Como ainda não eram horas de almoçar, abastecemo-nos de diversos enchidos para trazer para casa. Salame picante, salame all’aroma di tartufo, finocchiona, salame toscano, lardo. Uma delícia.
Em Panzano di Chianti visitámos a Anticca Macelleria Cecchini. Dario Cecchini, o dono, é uma verdadeira pop star. É talhante há cerca de quatro décadas e tem vindo a dar continuidade ao negócio familiar.
O seu negócio tem vários sub-produtos, entre os quais um talho, um restaurante com comida mais simples e a preços mais económicos, outro com menu de degustação, um cantinho onde vende os seus produtos (molhos, enchidos).
No talho, onde demos logo de caras com Dario, estão expostos para degustação alguns dos produtos que comercializa. Logo que entramos esticam-nos um copo e servem-nos de vinho tinto. Isto é que é saber receber bem.
Olhamos para o lado e a boca enche-se de água. Literalmente. Salame, pão, azeite com flor de sal, chutney de pimento, gordura de porco aromatizada. Tudo ao nosso dispor para experimentarmos sem reservas. É difícil sair para continuar a jornada. Ainda assim saímos, mas depois de termos passeado pela vila, voltamos a entrar para assimilar melhor os sabores da terra.
Em San Gimignano, na Piazza della Cisterna, experimentámos os gelados da Gelateria Dondoli, gelataria multipremiada por diversas vezes e vencedora por duas vezes do Ice Cream World Championship. Não sei se é a melhor do mundo, mas que os gelados são muito bons, há isso são.
Ainda na Toscânia, em Siena, fomos à Osteria Chiacchero degustar um tagliatelle sugo antico e bollito com salsa verde, carne cozida com molho verde, e uns maravilhosos cantuccini com vino santo.
Para além dos cantuccini, deliciámo-nos com panforte, um doce típico de Siena feito à base de frutos secos, mel e açúcar. Tem várias variantes, desde a clássica, que tem origem no século XIII, a outras mais modernas. Todas as que provámos estavam maravilhosas.
Também em Siena, fomos ao Gino Casino di Angelo, na Piazza del Mercanto. Se me pedissem para descrever o Paraíso, estaria presente um cantinho como este. É uma charcutaria que prepara o que quisermos com os ingredientes disponíveis, que são muitos.
Sejam tábuas de queijos, enchidos, sandes, mais ou menos elaboradas. Tudo acompanhado de vinhos da região. Pedimos uma deliciosa sandes de pancetta, beringela e molho de cogumelos e outra de alcachofra e finocchiona, igualmente soberba. Acompanhámos com um copo de vinho e terminámos com um doce, crostata alla marmelatta. Perfeito.
Já na capital da região de Emilia Romagna, em Bolonha, apesar de termos apanhado os estabelecimentos da área do mercado, alguns dos mais populares da cidade, encerrados por nos encontrarmos na época da Páscoa, tivemos oportunidade de saborear alguns sabores locais, uns mais tradicionais que os outros.
Bolonha é conhecida por La Grassa, “A Gorda”, uma alusão à sua cozinha, que teve sempre uma forte tradição. Numerosas receitas italianas, que entretanto se expandiram pelo mundo fora, tiveram origem em Bolonha. É o caso do ragù, que convencionalmente e erradamente se chama por todo o mundo esparguete à Bolonhesa, a lasanha, os tortellini, os tortelloni. Provámos estes dois últimos.
Comemos também as óptimas pizza al taglio na Pizzaria Altero, a laborar desde 1953.
Experimentámos ainda as maravilhosas e variadas criações da Sorbetteria Castiglione, nomeadamente o sorvete de limão de Sorrento (sem açúcar), sabor inventado em 1994, e gianduia (nocciolato Piemonte), sabor existente desde 1990. Esta gelataria faz uma aposta grande em ingredientes naturais, quer na confecção dos gelados como dos sorvetes. Deliciámo-nos também com um sorvete de morango em formato de “picolé”, que de tão autêntico parecia que degustávamos a própria fruta.
Para uma proposta menos tradicional fomos até ao Swinebar, um wine bar e restaurante-boutique. Num ambiente bonito e acolhedor, com luzes baixas, degustámos em formato de tapeio propostas como crostini de anchovas e alcaparras, bruschetta de tomate, azeite e alcaparras, bife tártaro, carpaccio de vitela. Acompanhámos os sabores com cocktail, como o Aperol Spritz.
Ao longo de vários dias fizemos uma viagem entusiasmante, rica, apetitosa e saborosa por alguns sabores e néctares italianos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Peixe em Lisboa 2015

Abril é um mês bom. Mais uma vez decorreu o Peixe em Lisboa, evento gastronómico que já vai na 8ª edição. Procuro estar presente para ouvir alguma apresentação dos chefes e saborear as propostas dos restaurantes presentes.
Presenciei a apresentação do chefe argentino Mauro Colagreco, que trabalha em França, no restaurante Mirazur, o qual apresenta duas estrelas Michelin e ocupa a 11ª posição no “The World’s 50 Best Restaurants”.
De seguida, depois de uma ronda pela oferta gastronómica, deliciei-me com propostas de cinco espaços.
Assim, do Arola da Penha Longa, do chefe catalão Sergi Arola, degustámos e aprovámos a truta fumada, cebola roxa em vinagre de framboesa e puré de couve-flôr, prato com aparência de sobremesa.
Experimentámos e rejubilámos com o Puri de sardinha de conserva natural, tomate picante e ovas vegetais.
Das propostas de José Avillez saboreámos, num registo asiático, a Bifana vietnamita com camarão.
Da Cevicheria de Kiko Martins deliciámo-nos com o Taco de tártaro do talho com algas e ovas.
A Taberna da Rua das Flores e o Flores do Bairro do Bairro Alto Hotel, como vizinhos que se dão bem, participaram juntos e dividiram o mesmo espaço. Assim, das propostas do restaurante do André Magalhães, a Taberna, provámos a miomba de cação. Miomba, ancestralmente, era uma sandes de cachaço de porco, correspondente ao actual Prego. A Taberna da Rua das Flores fez uma fantástica reinterpretação com cação, mostarda e massa de pimentão.
Do restaurante vizinho, no Hotel do Bairro Alto, chefiado por Vasco Lello quisemos experimentar o Polvo “empanado”, mas entretanto esgotou. Devia ser óptimo.
Por fim, terminámos, em beleza, com duas propostas dos restaurantes do Vítor Sobral, o novo Muxama de salmão da Noruega e o clássico prego de atum. Divinais.
Esta edição ainda não terminou e já estou ansiosa pela próxima.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Comida é Arte?

O que é que a comida tem que ver com a arte?
Há quem considere que cozinhar é uma arte. Pois, não sei se é literal. Contudo, seguramente a cozinha de autor com cuidados sérios na conjugação de sabores, texturas e apresentação, é arte. Neste caso o lado criativo é desenvolvido e explorado ao máximo.
Porém, não vou dissertar sobre esta vertente. Pretendo antes abordar a temática da comida nas artes plásticas, nomeadamente na pintura.
Se reflectirmos, artista que é artista, tem no lote das suas criações uma natureza morta. Nestas composições, que dizem serem fundamentais para desenvolver os princípios básicos do desenho, como a forma, proporção, cor, textura, composição e sombra, estão sempre incluídos vários alimentos, normalmente frutas e vegetais.
Paul Cézanne, Natureza morta com cesta de maçãs
Vincent Van Gogh, Natureza morta com prato de cebolas (1889)
 
Numa recente exposição que fui assistir, na Fundação Arpad-Szenes - Vieira da Silva, percorri diversas das obras da colecção da galeria Sonnabend. Num registo de pop art deparei-me com uma sequência de quadros em que a comida era o tema.
Como entrada, logo no arranque do núcleo expositivo, deliciamo-nos com a mortadela, Sliced Bologna, de James Rosenquist. Esta obra parece aquelas cortinas ripadas na entrada dos talhos mais antigos.
De seguida confrontamo-nos com as latas da Campbell's, imortalizadas pelo um dos nomes maiores da pop art, Andy Warhol.
 
Depois, surge o hot dog de Roy Lichtenstein, artista que tem outras obras com comida como tema.
De seguida surgem diversas obras de Claes Oldenburg, autor de Two Cheeseburgers e de Green Salad, bem como de muitas outras obras com a temática gastronómica.
Fora do âmbito desta exposição, as referências a comida em obras artísticas são múltiplas. Autores como Vik Muniz recorrem a diversos tipos de ingredientes para fazerem as composições. A Mona Lisa deste artista brasileiro é feita de geleia de manteiga de amendoim.
O seu Che Guevara é de Feijão.
O Frankenstein de caviar. Outros ingredientes como esparguete à bolonhesa, chocolate, açúcar e muitos outros são a matéria-prima deste artista.
Respondendo à pergunta inicial, como é evidente, tudo!