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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Taqueria Los Cocuyos - Cidade do México

O dia aproxima-se do fim. O estômago pede reforço. 
O cansaço de um dia a explorar a enorme cidade do México apodera-se. 
Caminhamos pelas calles com destino a uma referência gastronómica anotada. A Taqueria Los Cocuyos.
Já mesmo junto ao destino final, sentimos o aroma no ar, notamos a fila que se perfila junto a uma pequena janela que se abre para a rua. Para sentar apenas uns pequenos bancos, naquele momento todos ocupados.



Toda a dinâmica que vislumbramos encanta-nos, mas atendendo ao cansaço instalado, não nos podermos sentar vence-nos. Desistimos de ali ficar...Naquele dia... Porque voltamos logo no dia seguinte, com outra disponibilidade física e ainda mais apetite.
No dia anterior ficámo-nos por três dos cinco sentidos, a visão, o olfacto e a audição. Os outros dois, o paladar e tacto, estão prestes a ser testados.
Encontramos um cenário igual ao da véspera. Sai um ligeiro fumo, com um aroma delicioso, da grande panela cheia de diversas carnes. Há também fila, a qual ajudamos a adensar. Enquanto esperamos assistimos a todos os movimentos. No pequeno espaço, dois homens manejam na perfeição todo o processo. Um terceiro, do lado de fora, regista os pedidos, informa os outros dois sobre os mesmos e recebe o dinheiro.


A partir da ordem exterior, no diminuto interior, inicia-se a elaboração dos tacos. Suadero e Campechano são dos mais pedidos. Percebemos. Para o Campechano um dos homens retira da imensa panela um naco de carne e uma longaniza (linguiça). Com um cutelo parte, veementemente, ambos os ingredientes em pequenos pedaços.
Vão revezando de tarefas. Tanto estão no corte dos ingredientes, como a mexer os ingredientes na panela e a reforçar a mesma com mais conduto ou na chapa onde fritam as tortillas de milho dos tacos e dão a fritura final na carne.


O entrosamento é perfeito.
O taco de língua é outro que tem saída. A língua já está cozida e encontra-se num recipiente ao lado da panela, com outros ingredientes. É aí que devem estar os olhos também. Sim, taco de ojo é outra possibilidade, tal como tripa, molleja e cabeza.
A nossa escolha vai para o Campechano, Suadero e Lengua.
Enquanto esperamos deliciamo-nos com os que vão saindo.
Chega a nossa vez. Vemos toda a elaboração. Com um grande cutelo é feito o corte fino da carne e da longaniza. As tortillas vão à chapa e são, através de movimentos curtos e rápidos, passadas pela gordura libertada pelas carnes. Assistimos também à retirada do plástico que protege a língua e outras carnes, para logo de seguida ser cortada uma fatia da grossura de um dedo.


São-nos entregues os pratos com os tacos. Sentamos-nos nos pequenos bancos vermelhos que ocupam o passeio, enquanto a vida corre por aquela e muitas outras ruas da imensa Cidade do México.


Observamos a fisionomia daquele ex-libris gastronómico mexicano, beneficiado com a presença dos coentros e cebola picada, e com um apetite ansioso damos a primeira trinca. Eu no taco de língua. A primeira impressão é excelente. Ao lado oiço as outras reacções. "Uau! Maravilhoso!".
Começaram pelo Campechano. Deixo esse para o fim. E vou num crescendo. Até chegar ao céu, que é como quem diz a saborear o taco Campechano.
Todos são excelentes, mas este entra nas nossas memórias gastronómicas, que saíram mais ricas depois de conhecermos a Taqueria Los Cocuyos.
Quase duas semanas passaram e voltamos à Cidade do México, depois de uma deambulação por outras coordenadas mexicanas.
Os tacos dos Los Cocuyos continuam presentes nas nossas mentes e corações e só de pensar fazem-nos salivar. 
Sem qualquer hesitação decidimos regressar. Dizem que não se deve voltar onde se foi feliz, mas contrariámos essa ideia. E não nos arrependemos.
Todas as memórias positivas repetiram-se e saíram reforçadas, com o acréscimo de termos tido a oportunidade de experimentar outras variantes.
Lembram-se do taco de cabeza e de ojo? Desta vez escolhi-os sem medos e saboreei-os minuciosamente e totalmente deliciada. São óptimos. 


Como todos. No entanto, o Campechano continuou a ser unanimemente o nosso favorito. O melhor taco de todo o México. Assim o elegemos.
Pelas ruas, envoltas pela noite, e aquela hora silenciosas, regressamos ao hotel com o estômago radiante e a cabeça a rebobinar toda a mestria dos movimentos aplicados na elaboração daquela quinta-essência. É com essa imagem que adormecemos. Não sonhámos, porque tudo, felizmente, foi real.

quinta-feira, 7 de março de 2019

São Tomé - Locais Que Valem A Pena

Durante a nossa estadia fomos comendo em vários locais.
Entre os que valem a pena, para além do já anteriormente referido, destaque para a Casa Museu Almada Negreiros, na Roça da Saudade.
Num alpendre com vista magnífica e desafogada para o verde das copas das árvores, fizemos uma óptima refeição.


À entrada do espaço fica o aviso, nas palavras de Almada Negreiros, que ali nasceu, "A alegria é a coisa mais séria da vida".
Abordando coisas sérias, que é como quem diz alegres, vamos ao menu que por lá fizemos, composto por duas entradas, um prato principal e uma sobremesa. Tudo acompanhado por um sumo natural com as frutas locais.
O início fez-se por um prato composto de diversas propostas, como fruta pão, pepino e búzios, omelete com atum fumado e coentros, chuchu com micócó, uma erva local afrodisíaca.



O momento seguinte foi peixe Andala, da família do espadarte, com beringela, quiabo, cebola, matabala e azeitonas com baunilha.



De seguida, saboreámos, como prato principal, lussua, que se trata de um género de espinafres, banana pão, caril, feito de gengibre, açafrão e manga verde, de peixe (espadarte e atum), arroz de abóbora e erva mosquito.



Terminámos com um bolo de cacau, ou não estivéssemos na terra deste fruto.
O restaurante tem como filosofia apresentar a gastronomia e os ingredientes da terra. Fazem-no de uma forma simples, bonita e simpática. O local é privilegiado, a comida bem confeccionada e o serviço atencioso e cuidado.



Outro local que  deve fazer parte do roteiro gastronómico é o Mionga, em São João dos Angolares, junto ao rio que vai desaguar à praia de Santa Cruz.
O dono é um antigo empregado da Roça São João dos Angolares, um pouco mais acima.
Por ali tudo é simples e saboroso. 
Começámos com sopa de feijão e bolinhos de arroz. De seguida prosseguimos para peixe grelhado acompanhado por arroz, banana pão, chuchu e matabala.



Como sobremesa comemos calda doce de papaia.



No Celvas, em Guadalupe, apesar do preço despropositadamente elevado da refeição que por lá fizemos, destaque para os bolinhos picantes de peixe e para a mousse de sape-sape.




No restaurante do Praia Inhame Eco Lodge, onde passámos uns dias, fizemos várias refeições. Destaque para a salada de polvo e a omelete de micócó.





Destaque ainda para o primor do jantar do dia dos namorados, no qual houve um cuidado especial com o buffet apresentado. Leitão no espeto, peixe, polvo, vários acompanhamentos, frutas, bolos e muitas outras iguarias. Estava tudo óptimo, o que conjugado com a atmosfera local, potenciada pelas mesas no areal, a música ao vivo e a boa disposição geral, fizeram uma noite memorável.
Na ilha das Rolas vale a pena ter a experiência de almoçar na praia Café, numa refeição feita à base de peixe, preparada pelos locais.


Em São Tomé, a capital, é imperdível ir à Chocolataria Diogo Vaz abastecermo-nos de chocolates e comermos um dos doces ali fabricados. Recomendamos o brownie.


Também é uma excelente opção comer no Paraíso dos Grelhados, uma esplanada na marginal da Baía Ana Chaves. Fomos à noite e a luz é muito ténue, mas o possível desconforto de ver o que estamos a comer é compensado pelo conforto da comida, espectacular, a entrar na nossa boca. Os pratos são soberbamente servidos e os preços foram dos mais baixos que pagamos. 


Por fim, vale a pena ver a comida na arte no Museu Nacional e no Centro Cultural CACAU - Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias.






quarta-feira, 6 de março de 2019

Roça São João dos Angolares

A Roça São João dos Angolares, localiza-se na terra homónima, a meio caminho entre a capital, São Tomé, e o sul. Ainda que para os são-tomenses, tudo o que fica abaixo da capital seja considerado Sul.
Foi nesta antiga roça colonial, propriedade do cozinheiro e agitador cultural João Carlos Silva, que nasceu o programa televisivo, da sua autoria, Na Roça com os Tachos, em 2003, o qual o tornou famoso junto do público português.
Foi também nessa antiga roça, hoje dedicada ao turismo gastronómico, cultural e ambiental, que pernoitámos duas noites. Essa estadia proporcionou-nos viver todo o ambiente daquele espaço, designadamente os momentos das refeições, as quais, tal como o programa televisivo, exploram a gastronomia africana, em especial de São Tomé e Príncipe, com base em pratos confeccionados com ingredientes locais.
É no alpendre, com uma vista soberba, que decorre todo o palco gastronómico. É aí que fica tanto a cozinha como o espaço das refeições, em que ambos são divididos por uma bancada em madeira, como todo o mobiliário, preenchida por um conjunto de produtos locais, os quais tentamos descobrir a identidade.




Começar o dia naquele local é algo de mágico. O verde da envolvente e a beleza do mar, ao fundo, preenchem-nos. É com essa vista que saboreámos o pequeno-almoço, composto por diversas frutas (carambola, papaia, goiaba, banana, abacate, caja manga), bolo, pão, compota, sumo, chá e café pão.



Ao jantar, na primeira noite, optámos pelo menu de degustação. Já no segundo jantar ficámo-nos por um menu mais curto, composto por uma entrada, prato principal e sobremesa.
Assim, ao nos propormos ao menu de degustação, tivemos direito a um desfilar de sabores.
Começámos com um ceviche de peixe Andala, banana prata, erva mosquito, picante fura cueca, limão da China e gengibre fresco. Óptimo começo.



Sem mais demoras, porque fomos percebendo que o serviço era feito de forma impaciente e pouco polido, passámos para uma salada de papaia verde, coco, atum, raspas de abóbora, abacate, milho, pimenta, maçã e vinagrete.
Comida irrepreensível. 


O momento seguinte passou por beringela, batata doce com canela, queijo de cabra, ovas de espadarte, abóbora, quiabo e laranja.
Em apenas três pratos fizemos uma viagem por diversos ingredientes, com uma conjugação criativa e deliciosa. 
De seguida degustámos bolinho de mandioca, peixe espadarte fumado e flor amarela com manga.


Entretanto passámos para um prato composto por banana pão, com queijo e bacon, folha príncipe e bacalhau com bolinho de amendoim em farinha de mandioca e gota de picante.


Ainda no capítulo dos pequenos pratos, lábios crocantes de matabala, omelete com micócó, tomate recheado com bacon, queijo e erva mosquito. O sabor do lábio crocante de matabala assemelha-se a um coscorão.


O momento seguinte faz-se de uma simplicidade deliciosa. Manga assada no forno com flor de sal de Tavira, sumo de limão e maracujá. Servida ainda quente. Uma maravilha.


Prosseguimos com goiaba e jaca, prato que terminou a fase dos pequenos pratos.


Como prato principal foi-nos apresentado pargo, batata doce e chuchu com quiabos. Aqui a comida apresentou-se sem quaisquer artifícios, cozinhada de forma simples, a tirar partido da qualidade dos ingredientes.


No capítulo das sobremesas, iniciámos com doce de papaia verde com maracujá, queijo da ilha de São Jorge e compota de goiaba. Questiona-se a necessidade de inclusão de produtos que não são locais, mas à parte este aspecto pareceu-nos uma proposta interessante.


Para terminar, de uma forma concisa e saborosa, maçã e chocolate





A avaliação do desfile de sabores é muito positiva, designadamente a primeira fase, composta por pequenos pratos. Sentimos a experiência como extremamente enriquecedora para o nosso dicionário de sabores, o qual ficou muito mais preenchido e diversificado. Nota, igualmente, muito positiva para a criatividade e conjugação dos ingredientes.
Verifica-se algum cuidado no empratamento da sequência dos pequenos pratos, mas primam essencialmente pela simplicidade. A sofisticação concentra-se na panóplia de sabores, de texturas e na qualidade dos ingredientes.
Como ponto negativo, assinala-se o serviço, o qual em muitas circunstâncias revelou-se pouco cuidado e simpático. Em determinados  momentos foi mesmo rude (chegou a acontecer  os empregados dizerem-nos, de forma imperativa, "Coma!", "Tire isso (os talheres) daí!"). 
O facto de termos ficado por duas noites permitiu-nos perceber que a gestão do espaço, por aqueles dias a cargo dos filhos do cozinheiro João Carlos Silva, não prima pela simpatia e pela delicadeza.
Intuímos que se não há um tratamento cordial com os clientes não poderá haver também com os funcionários. Arriscamo-nos mesmo a dizer que há uma ausência de formação a quem ali trabalha, o que é lamentável, pois sem ela, que é a base, tudo é menos próspero.
Pelo percurso feito pelo cozinheiro e pela sua posição enquanto quase embaixador da cultura são-tomense, julgamos que todos tinham a ganhar com o melhoramento da componente da formação e relacionamento humano. Porque o resto, a beleza da envolvente e a qualidade e bela confecção dos ingredientes, já lá está.
Fica a nota.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Sabor de Paris

Paris. Deambulávamos pelas ruas. O Marais tinha acabado de entrar na nossa geografia.
Na procura do Memorial Shoah esbarrámos, quase literalmente, com uma fila. Chamou-nos a atenção a fila, mas sobretudo a vitrina, generosamente aberta para a rua, o que nos permitiu sem qualquer dificuldade ter acesso ao interior. Para além do enorme e vistoso lustre, tivemos contacto visual com os apelativos doces e pães. Automaticamente maravilhámo-nos também com o processo produtivo, possível de vislumbrar do exterior.


Aux Merveilleux de Fred, indica a frente de loja. Aguardamos na fila para ter acesso ao maravilhoso. E não é que é mesmo maravilhoso o que esta patisserie nos tem para oferecer. Provámos, entre várias opções, o Le Merveillex. Trata-se de um bolinho delicado, elegante, saboroso e cheio de personalidade. Uma receita que encontra o equilíbrio perfeito entre o merengue, crocante na superfície e derretido no interior, e o chantilly suave e raspas de chocolate negro. É simples, mas singular. Sendo doce, apresenta uma leveza surpreendente.


Já na Île Saint-Louis, iniciámo-nos nos, considerados, melhores gelados de Paris, os Berthillon. Tangerina foi o sabor escolhido. Muito delicioso, de facto. Mas igualmente muito mal servido. Pena.
Ainda no campo dos doces, insistimos em entrar na Ladurée dos Champs Elysées. Valente espera, de mais de 30 minutos, para entrarmos num dos ex-libris gastronómicos da cidade. A loja é bonita. A oferta é linda e deliciosa. O forte são os macaron, mas a oferta faz-se de outras coisas deliciosas. 


Optámos por um sortido de macaron. Cada um melhor que o outro. No entanto, ficámos com pena de não termos lanchado por lá. A fila era outra.


Na Place de la Madeleine, onde se concentram um conjunto de lojas gourmet, conhecemos o mundo de Patrick Roger, um chocolatier artista. Esta é uma das várias lojas, todas lindíssimas, deste conceituado mestre do chocolate. Tudo inspira elegância, design e qualidade. Quando saboreamos os seus chocolates, momentaneamente tudo pára e apenas há espaço para um mundo deliciosamente bom.
Ao longo da nossa estadia fomos tropeçando em patisseries e boulangeries, essas nobres instituições francesas. Pelo, que os bolos, o croissant e a baguete foram fazendo parte da nossa dieta.




No campo dos salgados, destaque para as galette ao estilo Bretão que saboreámos no Breizh Café e no Le Petit Plougastel. Ambos têm uma oferta baseada em produtos de grande qualidade. No Le Petit Plougastel enveredámos também por um crepe doce de banana flamejada.


Breizh Café

Le Petit Plougastel

Destaque ainda para tartare de boeuf, um dos clássicos da cozinha francesa que saboreámos.


Se o assunto é comida, não pode faltar uma incursão à La Grande Épicerie de Paris, o paraíso de qualquer gourmet. Neste imenso armazém comercial encontra-se uma imensa oferta de produtos alimentares, bebidas, utensílios de cozinha, bem como de banquinhas para degustar produtos exclusivos.
Uma viagem nunca fica completa se não sentirmos o ambiente vibrante dos mercados. Deliciámos-nos com a vida, cor, textura e oferta do marché d'Aligre, próximo da Bastilha, e do marché de Belleville

Marché d'Aligre

Marché d'Aligre

  Marché de Belleville

Marché de Belleville

Neste último, muito vibrante, entrámos na multiculturalidade tão presente em Paris, ou não fosse Belleville um dos bairros que desde sempre albergou as comunidades imigrantes, designadamente vindos do Norte de África, África sub-sahariana e China. Por momentos, sentimos que estávamos noutra parte do mundo, enquanto os vendedores, maioritariamente de origem imigrante, vendiam Portugal, o nome dado em grande parte do globo às laranjas. Reminiscências do importante papel dos portugueses nos inícios da globalização.


Também fruto da forte multiculturalidade presente em Paris, destaque para a experiência que tivemos na Grande Mesquita de Paris, onde saboreamos um chá e doces à moda do médio oriente. Uma vez mais, fomos temporariamente para outras coordenadas geográficas.



Nas ostras ficámo-nos pelas do Henri Matisse, acompanhadas por Tulipas (Tulipes et huîtres sur fond noir, 1943).

Tulipes et huîtres sur fond noir,  Henri Matisse,1943

Na arte encontrámos muito mais comida, como o Arroz con Pollo (1981) do Jean-Michel Basquiat, as frutas tropicais do Gauguin e as maçãs e laranjas da natureza morta do Cézanne.




Paris faz-se de arte. De bem comer, de bem viver e de toda a restante que nos enche a alma.